sábado, 10 de fevereiro de 2007

O meu tio do Brasil


Tenho um tio no Brasil

Que ontem me telefonou.

Entre notícias e anedotas

Muitas coisas perguntou.

Queria saber de tudo

O que por aqui se passa.

Recordar velhos tempos

Das lindas cachopas

Que hoje já não comem pipocas

Das saias plissadas

De blusas bordadas

A caminho da Romaria

__ O tio ainda se lembra ?

__ Quem diria !

Em tardes amenas

De sagrados ritos

Íamos todos

Ao Senhor dos Aflitos

À senhora do Circo

À Senhora das Dores

Iam em novenas, crentes e ateus

Lá para os lados de S. Mateus.

Por tudo o que ouvi

Promessas, cantigas e rezas,

Tanta pulga, tanta mosca

Davam ao santo com regalo

O meu tio foi levar

Os tomates de um galo.

O tio lá do Brasil

Gargalhava como um tolo

Lembrava-se dos Milagres

Para os lados de Cernache

Quando trazia o bolo

No andor e aos ombros

Com os outros rapazes

Piscava o olho às raparigas

Que com olhares fugazes

Se escondiam nas esquinas

Pensando no bailarico

Quando a noite,escura como bréu

Escondesse um ou outro beijo

E a lua suspensa de uma estrela no céu

Aproveitando muito bem o ensejo

De ver os rapazes Alguns forasteiros,

Por entre as mocinhas, sempre animadas,

Tinham mais brilho que mil candeeiros !


Ah ! E o piquenique ?

Comido à sombra das oliveiras.

Comíamos fruta madura,

Tão doce como alguns beijos,

Polvilhada com ternura.

No caminho, bebíamos água cristalina,

Em taças feitas de folhas de couve

Refeição assim tão fina

Decerto que nunca houve !

Ah ! Como é bom recordar

O piquenique no prado,

Hoje só quero sonhar

Mesmo estando acordado !


Meu tio lá no Brasil

Ainda falou com emoção:

Que do manto azul do céu

Fez alvos guardanapos

Para aqueles piqueniques.

E quando o Sol adormeceu

Tirou muitos retratos ....


Adeus, tio, até à próxima

Disse eu, quase a chorar.

__ Rapariga, deixa estar,

Que a vida só vale a pena

Se usarmos como lema

O que por nós foi recordado. !!


Natércia Martins

2006


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