quarta-feira, 29 de abril de 2015

Maria da Glória

Conheço a Maria da Glória há montes de anos. Era minha vizinha. Posso dizer que a conheço desde sempre. Mulher de estatura pequena, magra, muito magra. Sumida pelo trabalho.
Sempre imaginei que o cérebro dela fosse mais pequeno que uma ervilha. Não pensa. Não vale a pena. Nada na vida dela valeu a pena.
Foi à escola, mas desde que aprendeu a ler e a escrever um pouco, o pai levou-a para casa. Não valia a pena aprender mais. O que sabia chegava. Tinha que ajudar a criar os irmãos. Pelo rodar da vida sempre foi assim. Sem tempo para ela. Maria da Glória nunca saiu da aldeia.
Primeiro foi o ajudar os irmãos, lavar, passar a ferro, os animais que lhe ocupavam muito tempo. Aprendeu com a mãe a dar “ uns pontos” na roupa, fazer as suas saias e blusas. Se era preciso comprar mercearia, roupa ou qualquer utensílio, o pai ou os irmãos ocupavam-se disso.
Ela não ia. Não valia a pena.
O tempo voou tão depressa que nem deu por ele. O pai morreu e Maria precisou de ficar a dar apoio e companhia à mãe.
A mãe precisava de cuidados constantes que Maria se apressava a satisfazer. Maria! Sempre a Maria.
E o tempo foi passado sem dar por isso, como sempre.
Uma tarde quente de verão, sentou-se no degrau da casa de pedra, e viu ao longe um homem, mais velho e quando este se aproximou, entabularam conversa. Ele queria casar com ela. Maria olhou e pensando na mãe que deixou a dormir, num intervalo de descanso, disse-lhe que não podia pensar em deixar a casa.
Ele insistiu, mas ela respondeu-lhe como sempre respondeu a tudo na vida: -- Não vale a pena!
Perante a negação, ele pensou que não valia a pena insistir mais e foi embora.
Maria ouviu a mãe chamar e foi solicita atender. Precisava de um copo de água. Foi buscar e voltou para a cabeceira da mãe que entretanto adoeceu. 
Nunca visitou a campa do pai. Não valia a pena. Os irmãos iam lá.
O “canto” dela era ali. Sempre ali. Sempre foi precisa ali. O trabalho era única distracção. À noite de tão cansada colocava a cabeça na almofada e adormecia sem sonhos. Não sabia o que eram sonhos. Não valia a pena sonhar. Nem isso valia a pena!
Uma noite, noite alta e ainda acordada, olhando a janela viu um vulto a aproximar-se. Era o homem que falara com ela uns dias antes. E foi aí que Maria, começou a saber o que eram sonhos. Enrolados os dois como se fosse um corpo só, fizeram, o que Maria nunca sonhou, porque os sonhos dela não eram aqueles.
E outras noites se seguiram. Maria deixava a janela encostada para que no mansinho da noite ele entrasse e ela se entregasse ao que nem desconfiava existir.
Mas ainda havia muito mais para descobrir.
A mãe, doente e já com idade avançada cumpriu a ordem natural da vida e numa noite em que Maia, sem se aperceber, e embrenhada nos braços do homem, deu um suspiro e morreu.
Só de manhã e quando lhe iria proporcionar os primeiros cuidados se apercebeu da morte da mãe. Chamou os irmãos. Não contou a ninguém o que fazia noite alta, quando deslumbrada e esquecida de tudo, se entregava ao prazer que nunca antes conhecera de tão perto. Não valia a pena contar.
E só quando acompanhou o enterro da mãe, descobriu que para lá da sua janela, da sua casa, havia muito mais casas, muito mais vida. Havia um mundo que ela não conhecia.
Depois da morte da mãe ficou sozinha. O homem que a visitava deixou aos poucos, de aparecer. Também ela, ficou por ali, sem sair para outros lugares só porque ……… não valia a pena!
 Natércia Martins

2015

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Mala de cartão

Era dia de Reis. Cheguei com uma mala cheia de roupa e objectos pessoais. Muito pouca coisa. O Carvalho Araújo atracava no cais no Funchal. Nunca eu pensava que um dia iria para uma ilha dar aulas. Mas fui. O mar imenso era muito maior que alguma vez poderia pensar. Eu, que sempre vivi na aldeia, no interior de Portugal nunca tinha visto um marinheiro. A farda, branca, impecável, tornava os jovens marinheiros muito mais elegantes e bonitos. Eles eram bonitos. Seriam? Sei lá! Aos olhos de uma mulher de vinte e poucos anos, eles eram ainda mais bonitos.
O Cais do Funchal, na época, era o único elo que o ligava ao Continente. O Aeroporto seria inaugurado ainda comigo por lá. Não havia dinheiro para pagar outro transporte que não fosse o velho Carvalho Araújo.
Quando desembarquei, já perto da noite, só vi luzes em fila e mar. Só mar!
Como saio dali? Não fazia a menor ideia. Apenas se vislumbrava uma ideia. Como nunca gostei de dar “ parte de fraca” apanhei ali um táxi que me levou a uma pensão cujo nome li, por acaso num jornal, ainda no barco.
No dia seguinte dirigi-me à Direcção Escolar para me ser distribuída uma escola. Os professores foram sempre considerados os parentes pobres do sistema. Já naquela época. Fiquei contente porque tinha trabalho. Fui no autocarro até um lugar onde me informaram que teria de sair. Era ali? Claro que não! 
À beira da estrada à espera do autocarro estava uma senhora que pegou as malas do correio.
Fui com ela. Esperava-me uma vereda de várias horas. Lá ao fundo o mar e o casario. No meio da vereda cavada na rocha olhei lá para baixo. O mar Sempre o mar! Era eu a nova professora.
A sala de aulas era quase a minha casa. Não era uma escola tradicional. Instalada num salão de um palácio semi-abandonado apenas dispunha de um minúsculo quartinho com a cama de ferro e uma cadeira. Sem água e luz era apenas um  candeeiro de petróleo e um fogareiro lento, velho e ferrugento a mobília da cozinha. Os pais dos alunos disponibilizaram uma panelita e um prato. Os talheres comprarei na única venda da aldeia. A venda cuja proprietária era a Dulcinea tinha tudo. Batatas, feijões, couves, redes de pesca, sabão, azeite e o correio. O correio era a cópia fiel do livro de Júlio Diniz. A senhora transformou-se em Bento Portunhas. Abria a mala do correio. Pegava nas cartas atadas com um cordel. Revirava de um e outro lado. Os olhos das pessoas que entretanto iam chegando na pressa ou na esperança de notícias de um marido o filho entretanto emigrado na Venezuela ou Canadá.
Depois desatava as cartas, lia em silêncio, só para si, cada uma e só depois olhando para a assistência estendia a mão dando a tão esperada carta. E eu ali, também, esperando carta de casa. Quando chegava ao fim do maço das cartas as pessoas desanimadas rumavam a casa cabisbaixos. Talvez amanhã!
Não tinha carros. Não podiam ir para lá. Havia uma ou duas pessoas que nunca tinham visto um automóvel.
Agora, depois de cinquenta anos, penso no que podia ter saboreado e me passou ao lado. Saborear o cheiro do mar que eu via da janela da escola. O mar à noite era medonho, mas lindo. Os barquinhos de pesca pareciam que se perfilavam lá ao fundo na cortina onde o céu se une ao mar. As luzes a piscar davam ideia de estradas e os candeeiros a iluminar a berma. Nas noites de trovoada as faíscas caiam na água dando a ideia que tudo ia pegar fogo. Quando me convidavam a ir ao “ calhau” á maré das lapas, caramujos ou caranguejos era uma festa.
Cozidos ali mesmo numa panela enorme comiam-se ali à mão.
De dia e enquanto dava aulas as mulheres sentavam-se num banquinho à porta de casa e bordavam. Toalhas lindas que saiam das suas mãos. Aprendi muito com elas.
Podia ter saboreado as cores que bordavam o céu ao entardecer. As cores misturam-se como na paleta de artista. Amarelo, vermelho, azul e roxo. Tudo ali no céu.
O Director podia ter-me dado uma escola melhor. Pois podia. Mas não deu. Ali fiquei até ao fim do ano com algumas peripécias pelo meio.
Hoje, com as vivências que tenho e a idade também, talvez tivesse saboreado de outra forma.
E eu a dormir naquele quartinho minúsculo enquanto o resto do palácio se encontrava vazio. Um dia depois das aulas deu-me a curiosidade e abri uma porta que se encontrava no meu quarto. Os móveis com algum pó e cobertos de lençóis brancos, estilo muito antiquado, esquecidos no sobrado velho e carunchoso. Os donos viviam na cidade. Desci as escadas interiores e deparei com a capela. No altar a Pietá de mármore com o Cristo ao colo, morto, era de uma realidade incrível. Que maravilha! Mas o arcaz dos paramentos chamou-me a atenção. Com cuidado levantei o tampo para ver melhor. Os ditos paramentos tinham rendas e bordados feitos certamente pelas senhoras que moraram ali. Agora, o palácio deserto, apenas cuidado pelo Senhor Gerónimo, homem já grisalho, que gostava de conversar. Quantas tardes ficámos ali no pátio do solar a ouvir histórias de baleias e tubarões que, se calhar, nunca deram à costa.
O Sr. Gerónimo era bom contador de histórias e ainda me aguçou mais a curiosidade de ver o que havia dentro do solar e daquele arcaz.
Com o maior cuidado levantei a tampa de uma caixa que estava no meio dos paramentos. Lá bem no fundo, ainda na capela. Uma criança mumificada. Quantos anos teriam? Muito, muito antigo! Era hábito nas ilhas, quando o morgado do solar falecia à nascença, ou pouco mais tarde, tratavam de forma a mumificar o corpo na capela.
Fugi escada acima com medo. Nunca mais desci as escadas e muito menos alguém soube que “ visitei” o solar.
Passados quase cinquenta anos voltei lá. Já fui de automóvel. A senhora Dora já não leva as malas do correio. O solar sofreu obras. Há um passeio pedonal junto ao “ calhau” onde coziam os caranguejos, os caramujos e as lapas. Hoje é praia de surfistas.
A escola é num edifício próprio. Perdeu a magia dos meus vinte e tantos anos ? Não! Apenas evoluiu!!!!    



segunda-feira, 6 de abril de 2015

Desilusão

Tarde quente de verão. Sentei-me na esplanada em frente a um grupo de homens que, sentados na mesa em frente bebiam e conversavam. Impecáveis no fato cor de cinza e camisa branca. Deveriam ter trinta a quarenta anos. Bebi um refresco e fiquei a pensar nas notas do último período de aulas, dos meus alunos. Havia alguns que não iriam passar de ano. Culpa deles que não estudaram o suficiente ou culpa minha que não me fiz entender e explicar as aulas convenientemente? Uma dúvida que sempre que o ano findava, se me colocava. Ano após ano.
Acabada a bebida foram-se levantando e depois de um cumprimento, saíram e rumaram a casa.
Levantei a cabeça e vi que um ficara sentado a olhar me.
Desvalorizei. Os meus alunos enchiam-me, naquele momento, todos os pensamentos. Levantei-me e dei a volta ao quarteirão e fui para casa.
O homem tinha uns fiozinhos brancos de cabelo a espreitar por entre os outros ainda negros. Isso ficou me na cabeça, embora não tenha dado grande relevância à pessoa.
Por curiosidade, fui de novo à esplanada. Fui ver se encontrava o mesmo grupo embora nunca os tivesse visto por ali. Não! Apenas um. O dos fiozinhos de cabelos brancos, com um copo de limonada na mão. Entabulou conversa perguntando se eu gostava do verão. Ele não gostava muito do calor, mas que não havia outro remédio.
Mais um dia. Outro dia e fomos conversando do calor, das aulas, do trabalho dele, dos meus alunos, de outras banalidades.
Fomos falando e pouco a pouco fomos aproximando as nossas vidas e as nossas conversas.
Tão boa a sua companhia, a sua mão na minha, os lábios tão quentes e até o seu bafo me confortava. Passámos a sair juntos.
O tempo foi-nos aproximando e nós gostávamos. Dei por mim apaixonada. A paixão existe? Não faço ideia. Mas aquele sentimento não podia ser outra coisa, pois passei a deixar de pensar tanto nas aulas. Sempre ele.
Quando à noite ele me sentava nos joelhos e me abraçava, eu ficava sem pensar em nada. Só aquele cabelo e os olhos grandes e lindos me enchiam a alma e o ego. E eu gostava sempre.
Cada centímetro da sua pele respirava sensualidade.
Uma tarde, enroscados junto à lareira, em minha casa, porque a noite estava fria, contou-me de uma relação antiga. Foi mau. Deixou marcas. Chorou e eu chorei com ele. Uma traição não se esquece com facilidade. Ele tinha sido vítima de uma traição. Mal eu sabia …….
Consolei-o, não só naquela noite mas em muitas mais que se seguiram. Como ele se mostrava meigo! Os olhos lindos, cada vez mis lindos, rasos de lágrimas, ia contando como fora amargo encontrar os dois, numa manhã, deitados lado a lado na mesma cama onde ele e ela dormiam.
A cabeça pousada nos meus joelhos. Imagino o que sentia e talvez sem eu querer, foi assim que me apaixonei.
Os dias e as noites foram passando, ora na minha casa ora na dele. De vez em quando íamos passar a tarde que restava no fim das minhas aulas e do trabalho dele. O grupo mantinha-se por ali, fazendo eu também parte dele, agora.
Eram divertidos, mas também já não seria por muito mais tempo pois o contrato da Empresa onde trabalhavam iria findar. Cada um rumaria às suas casas e a outros contratos noutras terras.
Nunca coloquei a hipótese dele ir também. Nunca perguntei, como nunca perguntei porque razão um dos do grupo ficava tantas vezes para jantar em casa dele.
Numa das noites que fiquei em minha casa sem ele, vi que me esquecera da agenda em casa dele. Pronto! Teria de ir buscá - la de manhã. Precisava de dar notas e tinha aí tudo guardado.
Levantei-me um pouco mais cedo. Corri na esperança de o encontrar ainda deitado. Abri a porta. Pelo chão havia roupa espalhada e copos vazios em cima da banca da cozinha. Fui direita ao quarto e ali, na cama dele, juntinhos os dois amigos ainda abraçados dormiam depois de uma noite louca. Não deram por mim. Agarrei a agenda e corri direita a minha casa.
Meti a chave na fechadura que se abriu com um clic meio silencioso, meio chato. Não queria que me ouvissem.
Peguei nos sapatos, agarrei-os pelos saltos como se lhes quisesse apertar o pescoço. As lágrimas correram - me pela face enquanto subia as escadas. Sentei-me no último degrau e a cabeça vagueou mais uma vez. Era o fim. Revi mais uma vez a mesa da esplanada onde nos conhecemos, o amigo que ficava para jantar, a lareira onde me contou da traição, e por fim como os vi aos dois na cama, deitados lado a lado nos mesmos lençóis onde dormíamos.

Natércia Martins

2015 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A Senhora do testinho

A Senhora do testinho

Não imaginam como eram os serões em casa da minha avó, no Portugal profundo, encravado na serra. Sem electricidade. A fogueira ao canto da sala. O lume iluminava mais do que a luz trémula do candeeiro de petróleo.
A meio da tarde entrava a comadre  Guilhermina que a pretexto de perguntar à minha avó de como fazia as empadas. No dia seguinte iria para casa dela o sapateiro. Precisava de aprender como se cozinhavam. Ela até sabia, mas assim tinha conversa e, algumas vezes, nem a receita saía. A minha avó cheia de paciência repetia pela milésima vez, ou mais, que primeira se fazia a massa com farinha, azeite, ovos, etc etc. Já a comadre fechava os olhos encostando a cabeça à parede, confortada com o calor do lume.
O sapateiro e a costureira iam a casa dos fregueses, fazer o seu trabalho. Então nesse dia fazia-se uma comida melhor.
Mais tarde entrava a comadre Maria do Leitão. Alcunha que lhe assentava na perfeição. É que em nova colocou um dedo junto à rede no curral de porco que lho decepou. Daí o alcunha.
Essa chegava apressada pois tinha deixado a ferver no “ borralho” uns ossinhos para o caldo do seu Zé. Ficava, ficava e ficava até ser noite fechada agachada num banquinho também junto da lareira. É que ela gostava de ouvir as histórias que a minha avó contava. Não havia muito mais com que nos entreter contava –nos o que, também ela, ouvira contar à luz triste do candeeiro de petróleo.
Uma noite contou que ali por aqueles lados apareceu um cavaleiro que pediu abrigo na hospedaria mais próxima. Ia para a cidade, mas como entretanto se fez noite, deu água e comida ao cavalo Depois de um repasto na cozinha da hospedaria.
Ao terminar a ceia olhou para um açucareiro pousado em cima da mesa. A tampa tinha a encimar uma imagem de Nossa Senhora ladeada de anjos. Como gostou dela e sem que a dona da hospedaria se apercebesse agarrou-a e meteu-a no bolso.
 Dormiu e sonhou com lutas guerras,donzelas e campos em flor. Toda a noite cavalgou.
De manhã, colocou as rédeas, a sela, as esporas e e fez-se aos montes na serra juncada de mato e tojos.
À medida que ia cavalgando, o seu cavalo transformava-se em javali. Já quase sem se equilibrar, agarrava a crina do javali. Tudo o que pertencia a arreios do cavalo tinha desaparecido. Ele cavalgava, cavalgava direito ao infinito, tendo apenas à sua frente os cornos esticados de um diabo feito javali.
De súbito levou a mão ao bolso. Encontrou a tampa do açucareiro e a imagem nela estampada e a plenos pulmões gritou: -- Valha-me a Senhora do testinho que tenho aqui no bolso.
O javali estacou. E tal como se transformou em diabo voltou a ser cavalo com arreios e estribos.
Respirou fundo, o cavaleiro. Era de novo o cavaleiro de antes.
Eram estas as histórias que nós ouviamos enquanto a comadre Guilhermina acordava e a Comadre Maria do Leitão ia para casa acabar o caldo.

Nós iamos para a cama sonhar com todas estas histórias fantásticas contadas ao serão no Portugal profundo que já não existe.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O moinho
O meu vizinho, pedreiro de ofício, homem de uma imaginação fértil, conta histórias de bruxas, lobisomens e pessoas, tão antigas como o tempo em que se lembra de viver.
O degrau da minha porta continua a ser uma espécie de esplanada à noite, quando depois de jantar ficamos na conversa. Hábito já velho. Mas são giras as suas histórias e eu gosto de o ouvir.
Natural de uma povoação vizinha é de lá que traz as memórias mais antigas. Depois de sair da escola, o que naquele tempo era recorrente, começou por ser moleiro como o pai.
Com um macho e a carroça percorria os campos de Montemor, Arzila, Figueiró do Campo.
Franzino, de pouca idade,ia fazendo as entregas como podia e sabia.
O moínho, pertença do pai moía o milho trazido nos sacos e taleigas para serem tranformados em farinha.
 Em casa havia broa. Havendo milho, havia broa.
O moínho nunca parava girando pela força da água que caía em levada pela rampa do rodízio.
A terra é farta de água mas faltam-lhe já os moínhos que, um a um, se foram calando, pela idade dos moleiros, que, também, um a um nos foram deixando.
O meu vizinho já não é moleiro, mas as histórias ainda lhe povoam a cabeça.
Conta que ainda ouve os rodízios que fazem girar as mós. Sonha com o pai a deitar o milho dentro da moega e o chamadouro ( ou tangedor) a obrigar o grão a escorregar na quelha até cair na mó, que mói, transformando o cereal em farinha.
E lá no fundo do moínho, por entre sacos de farinha e grão espreitava um rato ou vários ratos, porque todos sabemos que onde há farinha ou grão, há infalivelmente ratos, que matreiros escapam ao olhar e ouvido apurado dos gatos agachados, mudos, quase mortos de tanta quietude, prontos a saltar por cima da presa.
As mós rolavam, numa cadência bruta a moer o milho trazido nas taleigas amontoadas na carroça da mula à espera do carreto do dia seguinte.
O senhor Augusto, pai do meu vizinho, foi moleiro desde sempre. Nasceu entre sacos de farinha, de grão e de mós.
Homem de grande estatura. Com quase dois metros de altura. Cento e vinte quilos. Broa e sardinha assada no braseiro da lareira. A acompanhar a sardinha a pingar em cima da fatia grossa da broa, nos dedos negros, sujos do picão, pois a mó precisava, de vez em quando, de ser picada De tanto moer, gastava-se.
Mas o meu vizinho, de boa memória, contou que num dia de Outono, já o campo pedia lavoura, as cegarregas já se calaram no seu torpor de começar a hibernar. Sentado num saco de milho a obsrevar o moínho, a mó e a moega, que sem se cansar continuavam no seu labor, enquanto à frente dentro da gamela de madeira gasta por anos e anos de uso, caía a farinha numa cadência certa, branca em chuva, pintando tudo em volta da mesma côr.
Então o Senhor Augusto chamou a mulher e disse-lhe que no dia seguinte precisava de almoço para ele e quatro homens que iriam cavar um campo a fim de preparar a terra para semear milho. Muito bem.
A mulher de estatura franzina, contrastando com o marido, cozinhava bem e para aqueles dias de gente “de  fora” fazia uns petiscos de comer e chorar por mais.
Ainda de madrugada o bom do Sr Augusto levantou-se, pegou na enxada ao ombro. Os outros homens levariam as deles. A terra era grande. Levava o dia inteiro com ele e os quatro homens a cavar.
Chegou, pegou na enxada e foi adiantando o trabalho. Em casa o galo cortado em bocados, lourinhos da assadura no forno, arroz branco, chouriço, pão assim como o vinho no garrafão.
Tudo na cesta grande ao fundo da terra esperava pela hora de almoço.
Quem transportou tudo isto foi a “ Ti Maria Fresca” mulher do Sr. Augusto, mãe do meu vizinho.
Enquanto ia pelo caminho, passou por uma figueira com figos, pingo de mel. Poisou a cesta. Foi aos figos. Tinha dentes postiços. Como se sabe os figos são inimigos de quem usa este tipo de dentadura. As bolinhas metem-se nos dentes, por baixo, pelas fendas. A mulher para se deliciar, tirou a dentadura e deixou-a em cima de umas folhas de couve. Quando já tinha a barriga cheia de figos, bem procurou os dentes, mas estes desapareceram, provavelmente levada pelos gatos. Nunca mais teve dentes.
O Sr Augusto cavava, cavava e os homens que não chegavam ao trabalho. Aliás nunca chegaram. O homem cavou tudo sozinho. As bagas de suor escorriam-he na nuca, mas ele não parava. Queria tudo cavado. No fim do dia olhou para a terra toda cavada, com as leiras direitinhas, sentou-se numa pedra e se tinha cavado tudo sozinho também tinha direito a comer. Foi o galo, o arroz, o pão, o chouriço e o vinho. Não sobrou nada do que era para todos.
Deitou-se e dormiu. Amanhã seria outro dia. O moinho continuaria a moer o milho e a farinha iria cair, como sempre, na gamela de mdeira em chuva, pintando de branco tudo ao redor, como sempre. O macho, no pátio, esperava por mais um carreto. Sempre o mesmo todos os dias.
Natércia Martins
2014


domingo, 5 de outubro de 2014

Gaitas de capador
A tradição tansformou-se em rotina ou a rotina é que se transformou em tradição.
Lá pela manhã bem cedo os homens juntavam-se na porta da cozinha onde a empregada ou a minha mãe trazia um copo e a garrafa da aguardente, guardada e sempre cheia, no armário da cozinha.
A aguardente feita pelo tempo das vindimas, quando o meu pai, de calças arregaçadas carregava o caldeirão do alambique de cobre com os restos que saiam dos pipos. Não confiava a tarefa da aguardente a ninguém.
A bica feita com uma pequenina peça de pau de oliveira, entalada no cano apenas pingava, e o vapor da borra se transformava em deliciosa aguardente de vinho. Tantas vezes eu ou o meu irmão ficámos de guarda à fogueira que alimentava o alambique.
Lembro-me que pelos meus 17 ou 18 anos tinhamos combinado um bailarico numa aldeia vizinha O tempo não passava e a bica, pingo, pingo. Vai de deitar lenha na fogueira. Fez-se num abrir e fechar de olhos.
Pois! O pior foi a graduação. Fraquinha !
O meu pai não se preocupou muito. Deitou tudo lá para dentro de novo. Agora fazem como deve ser. Lá se foi a festa.
 Seria por isso que os homens gostavam de começar o dia de trabalho na quinta com um copinho cheio? Talvez|
A minha mãe destinou o dia para a matança do porco. Este era tratado e engordado lá em casa com produtos da quinta. Sempre gordos.Muito gordos! O porco era trazido até à eira onde o aguardava o banco próprio, os alguidares para o sangue, a gamela para as tripas e todo o interior. Tudo se aproveitava.
Seguia-se o trabalho inerente à sessão. Porco morto, copo de tinto bebido por cada pessoa que ali estava. As mulheres incluídas.
Depois, já nas lages da eira, chamuscava-se com tojo recolhido na mata uns dias antes. Mais um copo. O que se seguia: lavar, raspar o courato, limpar, tirar as unhas ( a que chamavam castanholas e as raparigas solteiras mandavam, por graça aos rapazes, por alturas do Carnaval, a gozar com eles), fazia-se sempre da mesma forma. Tarefas inerentes às mulheres.
O porco pendurado no chambaril, na trave da adega. Mais um copo. O pipo estava ali mesmo à mão. Pronto! Até ao dia seguinte não havia muito mais a fazer. O meu pai não gostava quando da matança do porco e este já pendurado, a minha mãe, de mansinho, abria a porta e de faquinha na mão retirava bocadinhos, dizia ela, que não faziam falta, mas fritava para o jantar.
No outro dia era o desmanchar, fazer morcelas ( que na minha terra levam canela) cortar a carne e temperar os chouriços, salgar os presuntos. Enfim ! uma data de coisas que na sua maioria já nem me lembro.
A minha mãe andava sempre por perto, pois cada pedaço tinha a sua finalidade. Outrora havia o costume de levar aos vizinhos de mais perto a “ assadura”. Esta consistia em pôr num prato uma morcela, um pedaço de lombo, um rim ( conforme se sabia que a pessoa gostava ou não), figado, entretinho e sangue cozido. Coberto com um paninho, levava-se ao vizinho próximo ou à pessoa importante da aldeia. Dava uma dose de sarrabulho.
O animal já retalhado e cortado para os chouriços Estes ficavam em tempero os dias precisos, De seguida iam para o fumeiro.
Já a minha mãe, sempre ela, tinha rapado, bem rapadinho as costelas, ou entrecosto, que partia em bocadinhos. Infalivelmente havia arroz de entrcosto. Infalivelmente, por alguns anos, o meu pai fartinho de saber como ela deixava os ossos chamava o meu avô, ainda vivo, na altura:
Sr. Guilhermino ! Venha jantar. Temos gaitas de capador!
Ainda hoje, ao entrecosto chamamos gaitas de capador. Já lá vão tantos anos! Já não matamos porco, mas as gaitas de capador, não tão rapadas, em minha casa, subsistem.
E a cabeça do porco ? Tinha a sua função na matança. Um cozido: batatas, couves, nabos, cenouras e a cabeça do porco, faziam as delícias. Dizia-se ir comer a cachola.
Do bucho ainda se faz um cozinhado saboroso. Depois de bem lavado e tratado enche-se com bocadinhos de carne, chouriço, galinha e outras carnes. Cozinha-se e põe-se arroz, sumo de limão e ovos batidos. Vai ao forno a alourar. Acreditem que é um petisco !
Era um regalo chegar ao borralho e ao olhar o fumeiro, os chouriços, as farinheiras ou os paios, enfileirados lá em cima. Certinhos nas varas até ficarem bons para mergulhar em grandes potes de barro cheios de azeite, vindo do lagar, ainda a cheirar a novo. O velho que saía desses mesmos potes e já não servia, era utilizado na “lavagem” para engordar outros porcos.
O mesmo ritual. As mesmas pessoas. Os mesmos utensílios. Tudo igual ano após ano.
No presente nada disto se faz. Até o costume de levar a “ assadura” ao vizinho se perdeu. Mudam se os tempos ! 
Também se mudam os vizinhos !
Costume antigo de aldeia perdida na serra.
Costumes de outros tempos.

Natércia Martins
2014


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Papa figos

Papa figos
A quinta da minha avó era um paraíso. Foi lá passada toda a minha infância e adolescência. Com o meu irmão, mais novo cinco anos, experimentámos tudo o que a natureza nos proporcionou: o cheiro das maçãs, da erva molhada, do milho acabado de colher, da broa a sair do forno e partida à mão, com sardinha salgada assada na cinza. O sabor da fruta fresca ainda pendurada nos galhos verdes das árvores. Os sons do canto dos pássaros, das ovelhas a pedir agasalho no curral.O sino com o repique depois do casamento dos meus vizinhos, ou o toque lúgrube do funeral. Não esqueço o som do sino que ao começar ou findar do dia tocava as três badaladas das  trindades convidando à oração breve.
Viver na aldeia é isto tudo: Viver os cheiros, os sons e os sabores. Vivi isto tudo na minha infância. Primeiro com a minha avó. Depois da sua morte os meus pais mudaram-se para a quinta. Eu por lá fiquei com eles e o meu irmão que sempre me acompanhou até as nossas vidas  se modificarem.
No inverno e a azeitona espreitava no cimo das oliveiras, davamos uma volta e apanhávamos cogumelos grandes, castanhos que por lá se chamam gasalhos. O pés das oliveiras eram um sítio húmido e com algum musgo. Era aí que eles estavam. Nós sabiamos.
A minha mãe, em casa, fritava-os com ovos. Que petisco!
 A minha cabeça é formada por uma amálgama de cheiros e sons desses tempos. Até o som do silêncio se instalou.
Entre as muitas árvores que havia na quinta destacavam-se as figueiras. Havia muitas e de várias qualidades.
Nas férias havia visitas. Penso que iam para a quinta para fugir do bulício da cidade, dos automóveis e saborear aquele lugar calmo e rural. Ali não havia mais nada.
Havia, também, as histórias fantásticas contadas nas noites de inverno, à volta da camilha e uma braseira no estrado redondo.  Hoje a mesa é minha e quando me sento lá recordo com saudade tanta gente que por ali passou. Meu Deus! Tanta gente!
Quem gostava de passar uns tempos na quinta, vindo de Lisboa, era um tio da minha mãe. O tio Augusto. Juiz desembargador, muito alto e com uma barriga grande e disforme que os meus primos tinham medo que um dia desse um estoiro. Nunca deu.
Gostava de se sentar na espreguiçadeira à porta da cozinha. Lá passava tardes inteiras, ora cochilando em pequenas sestas, ou mesmo preguiçosamente escutando os barulhos próprios da quinta e dos afazeres dos empregados.
Um dia no meio de um cochilo passou um criado com uma cesta de figos, lindos, frescos e luzidios. Chamou-o:
__ Anda cá. Dá-me um figo.
O rapaz respondeu pronto, enquanto pousava a cesta no chão:
__ Sr. Marques. Pode comer à vontade. É que são para os porcos.
Deu uma gargalhada o meu tio e comeu mesmo à vontade.
Na quinta havia três figueiras tão juntas que os ramos se entrelaçavam. Uma dava figos pretos, outra figos “ pingo de mel” e uma outra de qualidade indefenida.
A “ pingo de mel” era a mais procurada. Cada figo, no fundo, tinha uma lágrima a cair, tão doce que parecia mel. Daí o nome.
Paraíso dos papa-figos.
Os papa-figos são uma pequena ave de corpo amareo vivo, asas e cauda preta. Lindos! De canto aflautado, confundem-se com o estorninho. Também os lá havia.
Os papa-figos pousavam ao de leve nos ramos verdes da figueira aí pelos finais de Abril ou início de Maio. Também ficam quando a comida abunda, e enquanto comem os figos a cair de maduros fazem coros e até concertos com o seu canto. Quando de papo cheio e godinhos partem em migração para terras de África onde nidificam. No ano seguinte cá estão de novo.
Mas, como dizia, os papa-figos pousavam nos ramos da figueira e o meu pai ou o meu irmão, rapaz  ainda, pegavam na espingarda de pressão de ar, sentavam-se à janela da casa velha que servia de palheiro e apontavam ao “ passaroco”. Com um cordão atado ao trinco da porta, abriam –na e a cadela Tany, corria a trazer –lhes o papa-figos já morto.
Que ricas merendas a minha mãe fazia depois de depenados e fritos.
E era assim a vida na aldeia recôndita no meio da serra onde não havia muito mais para fazer.
Nunca consegui fritar um “ gasalho”ou qualquer papa-figo  com o sabor que a minha mãe lhe dava. Porquê ? Não sei. Também já ninguém caça papa-figos nem a pequena caçadeira é minha A cadela Tany morreu há muitos anos. A quinta já não é nossa. As figueiras de tão velhas morreram e no seu lugar há uma vivenda. Já pensei que as mãos das mães dão à comida um sabor especial. Vi, vezes sem conta a frigideira, no fogão de lenha a borbulhar e os pedaços de gasalho a ficarem dourados com os ovos trazidos da capoeira, a fervilhar com bocadinhos de presunto, também trazido da salgadeira do porco morto em Janeiro.
Mais cheiros, sabores e sons num turbilhão dentro da minha cabeça.

Natércia Martins
2014