quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Domingo à tarde



Domingo de um agosto com sol descoberto há algumas horas já.
Sentei – me na cadeira de praia que tenho na varanda.
Àquela hora, manhã cedo e já os barulhos característicos da mata se faziam ouvir ali tão perto.
Gosto particularmente do canto das cegarregas, que só se calam no inverno. Elas conversam umas com as outras e talvez com quem mora ali perto. Há quem as sabe entender. Gosto. Pronto!
Olhei, mais uma vez o relógio, cujos ponteiros teimam em não se mover. Lentos, lentinhos para o meu gosto.
Avizinhava-se uma tarde de domingo chata, sem nada que fazer. Pelo menos não me apetecia fazer nada.
Ler um livro? Não! Escrever? Também não! Bem puxava a “ponta do fio” que teimava em não aparecer. Quando o fio aparece as palavras saem em catadupa. Não era o caso. Nada!
Peguei na chávena vazia do café que bebi e que me soube tão bem. Ao menos isso.
Já que ideias não havia nada.
A chávena deu uma série de voltas na minha mão. Vá lá não caiu! Mas ideias …… Nada!
Do fundo da rua alguém chamou.
__ Bolas! Num domingo de manhã, com tanto calor e já me chamam.
Não me apetecia ler, não me apetecia escrever e não me apetecia falar. Os ponteiros do relógio continuavam a não querer andar.
Tornaram a chamar. Respondi quase só para saberem que estava ali já acordada.
Do fundo da rua perguntaram:
__ Quer vir? Vamos fazer uma caldeirada à beira rio.
Respondo e vi que algumas pessoas me esperavam ao fundo da escada.
Levavam uma panela, uma trempe para a fogueira, e a parafernália de instrumentos de cozinha.
Também levavam cebolas, batatas, pimentos, alhos. Enfim! Tudo o que era preciso para a dita caldeirada.
A fome ia connosco. Vi que levavam uma bola e muita conversa. Isso era bom.
Chegados à beira rio, apanharam uns gravetos que por ali havia e fizeram uma fogueira acautelada por pedras, não fosse o fogo “fugir”.
A Senhora Adelina tomou conta da situação. Vagarosa, sem pressas colocou a panela no fogo, cebola às rodelinhas, as batatas, o tomate, a salsa, o pimento, etc etc.
O peixe entrou cuidadosamente. Primeiro o mais firme. Depois o mais delicado
A panela fervia num fogo lento. Ali não havia pressas. Afinal tínhamos a tarde de domingo por nossa conta.
O cheiro da panela aumentava a nossa vontade de almoçar também. E a caldeirada não havia jeitos de sair.
A cozinheira abriu a panela. Que rico cheirinho.  A panela fervia agora mais lento ainda. A apurar!
Jogámos à bola, à corda, ao pião e finalmente a bendita caldeirada.
Estava boa. Muito boa! Eu que gosto pouco de tal prato.
Já noite fechada votámos para casa. Passei uma tarde de domingo sem me lembrar que, quando saí da cama não me apetecia fazer nada.
Belíssima aquela tarde.
Quando voltamos?

Natércia Martins

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Estrelas e planetas




Estrelas e Planetas

Fez um percurso normal na escola, denotando já preocupação e vontade de estudar a Natureza. José foi um bom aluno, apesar de não ser estudante muito acima da média. Já, nesse tempo se preocupava com a observação das plantas e animais. Era alegre e parecia estar sempre a gozar com o professor.
Respostas rápidas e sempre a tempo.
Ainda em criança e depois adolescente gostava de fazer campismo e junto com os pais e irmãos correu muito do país. Assim, em contacto com a Natureza, viu que o ar é mais leve e a noite mais atractiva que a ruas iluminadas da cidade.
Sentava-se junto da tenda e ouvia o silêncio do parque. Tudo sossegado e as estrelas lá em cima como pontinhos brilhantes que bordavam o céu.
Na verdade, cada pontinho brilhante faz parte de um grupo com formas geométricas. Descobriu a Ursa Maior, Ursa Menor, Cassiopeia e Orion e muitas mais constelações.
Mais tarde, com dinheiro que foi amealhando, comprou uns binóculos. Passou a observar a lua, redondinha, cheia, cravada no céu. A lua sorria-lhe e ele sorria para ela.
Convidou o amigo Luis para passar um fim-de-semana no campismo. Este só conhecia a noite na sua rua. Perto de casa. Admirou-se, porque as paredes da tenda eram de pano e a cama no chão. Mesmo assim, gostou de observar o céu como nunca o vira. Era lindo!
E o gosto foi-se avolumando.
José ouviu a notícia que, numa noite de lua nova, ia acontecer uma grandiosa chuva de estrelas. Mais uma vez pesquisou no computador. A chuva de estrelas não é mais que meteoritos que ao entrar na atmosfera se desintegram em pequenos fragmentos incandescentes, dando a ilusão de estrelas a mudar de sítio. Muita gente ainda pensa que são estrelas cadentes e é costume pedir um desejo, enquanto deixa atras de si um rasto de fogo. E ele também pediu um desejo, muitos desejos, perdidos na sua cabecita de adolescente.
Tantos desejos como estrelas cadentes que viu naquela noite. E foram muitas.
O tempo foi passando e o gosto pela observação agudizou-se. Pesquisou e comprou revistas.
Como todos sabemos a aldeia é cheia de lendas em que bruxas e lobisomens são os principais actores.
O meu vizinho, sentado sentado na soleira da minha porta, numa noite quente de Agosto contava histórias. É um bom contador de histórias.
Contou, numa dessas noites, que no cruzamento ao fundo da ladeira as bruxas se juntavam em grandes farras em noites de lua cheia. E contava, também, que o patrão delas, cornudo e pés de cabra as acompanhava nas danças à volta de uma grande fogueira.
Dizia conhecer um homem da aldeia, que sentado à lareira, via passar todas as noites, à sua frente, uma galinha pedrêz. Uma noite, já farto, arrumou-lhe com a tenaz do lume. A galinha desapareceu, mas a mãe dele, de manhã, estava de cama com uma perna partida. Concluiu que a galinha que lhe passava em frente todas as noites era a mãe transformada em bruxa e também dançava todas as noites, ao fundo da ladeira, com o tal cornudo com pés de cabra.
Com estas e outras histórias semelhantes se faziam os serões, no verão, à porta da rua.
Numa noite escura de breu, o José convidou o vizinho Luis para mais uma observação observação lá em cima, no barreiro, perto do pinhal. Dizem que andam por lá almas penadas (estas andam por todo o lado), bruxas e labisomens.
Montaram o tripé, os binóculos e um pequeno telescópio. O canto dos grilos e o piar de um mocho, cortou o escuro. De resto, o silêncio.
Sem se fazer ouvir um outro vizinho cuscuvilheiro, foi, de mansinho, ver por onde andavam os rapazes. Aproximou-se. O luis, brincalhão, escondeu-se.
O homem quis ver pelos binóculos. Sentiu uma ponta do casaco a ser puxada devagarinho. Soltou um suspiro. Arrepiou-se. Era verdade! Duvidou. Outro puxão no casaco. As bruxas!
Desatou a correr e só parou quando os rapazes desataram a rir às gargalhadas.