domingo, 12 de agosto de 2007

Baú de sonhos



Tenho no meu sótão um baú cheio de caixas coloridas.

Cada caixa contém,conforme a cor, desilusões, alegrias, ódios, amores desamores,sentimentos e cheiros.

Não abro todas as caixas ao mesmo tempo.

A caixa dos cheiros, contém os cheiros das manhãs no campo. O cheiro da terra molhada depois de um dia de chuva. O cheiro das espigas de milho na eira, ao anoitecer, depois de um dia de sol intenso. O cheiro das filhós a fritar em azeite, na noite de Natal. O cheiro da canja a ferver na panela de ferro em cima do fogão de lenha. O cheiro do jasmim e da celinda no jardim. Cheiros intensos, estes.

A caixa das chatices, dos arrufos, ódios, discussões, permanece bem no fundo . E nunca a abro. Tem uma fita bem amarrada, para maior segurança da tampa. Não vá ela saltar.

A caixa da saudade tem lá dentro a memória dos meus pais e alguns familiares próximos, principalmente a saudade da minha avó.

As histórias contadas em redor da braseira, apoiada num estrado de madeira por baixo da camilha.

Histórias que nunca se apagam da memória. Noites longas de Inverno, frias e brancas transformando o orvalho num manto de gotas de gelo.

Enquanto os olhos se iam fechando vencidos pelo sono, as nossas mentes transportavam para o sonho, o que os ouvidos ouviam.

A caixa azul contém recortes e recordações.

As escadas de cantaria viradas para a estrada e eu pequena, sentada no último degrau tendo por companhia o cão preto e branco, cujo nome se perdeu nos meandros da minha memória.

Ali sentado, esperava pacientemente a meu lado, que o moleiro passasse com meia dúzia de burros carregados de farinha ou grão, pronto para o moinho lá ao fundo da aldeia,.

Havia o padre António, já muito velho que aos Domingos de manhã, passava numa charrete puxada por uma mula tão velha como o dono.

Melhor que tudo era a passagem de um cavaleiro e um cavalo branco que por vezes por ali andava. Era lindo o cavalo .... E eu mais o cão sentados no último degrau das escadas. E aquela do assalto ?

Pois bem, o quarto do criado, situava-se junto à casa do forno e por cima do curral da mula. Tocava acordeão nos bailes na taberna do Xico Sapateiro. Das teclas saía um som mágico que ouvíamos com agrado, das “ modas” em voga no tempo. Naquela noite, como não era dia de baile, tocava uma “ moda” no quarto. Na cozinha ouviram-se uns barulhos esquisitos, seguidos de passos. Uma porta bateu. Todos nós ficámos gelados de medo. Foi, então, que a minha avó, agarrando um pouco de coragem, chegou à janela e chamou o rapaz que tocava o acordeão, lá fora, no quarto. O cão ladrou e os passos calaram-se.

Num repente,a porta abriu-se entrando de rompante o criado, com um gesto rápido, passou na cozinha, agarrou um chouriço que estava em cima da mesa e enfrentou o intruso, como se de uma arma se tratasse.

Se era um ladrão, nunca se soube, ao certo, mas a fama do homem que enfrentou um ladrão com um chouriço, correu pela aldeia.

Há, ainda, uma caixa em forma de coração. Lá dentro, bem arrumadinhos, os meus amores. Não falo deles. São meus e não partilho com ninguém.

Mas há uma outra caixa verde. Esta caixa é a dos meus sonhos. Não a abro nunca. Tenho medo que se escapem e se espalhem por aí. É que apesar da idade, os sonhos, não se acabam.

Natércia Martins

2007

1 comentário:

Vandinha disse...

Boa noite Srª Natércia,

O seu filho Zé aconselhou-me a ver o seu blog e fiquei encantada se assim o posso dizer...
Você escreve de uma forma excepcional, com alma talvez por isso escreva tão bem na minha humilde opinião... Obrigado por partilhar as suas palavras.
Gostei especialmente do texto da "Carta..." muito bonito tocou-me... e este onde deixo o comentário é especialmente belo... Na verdade dentro de nós temos caixas que abrimos consoante as ocasiões as alegrias as tristezas e os demais momentos que se nos apresentam na nossa vida...
Um bem haja Vanda