Desilusão
Tarde quente de verão.
Sentei-me na esplanada em frente a um grupo de homens que, sentados na mesa em
frente bebiam e conversavam. Impecáveis no fato cor de cinza e camisa branca. Deveriam
ter trinta a quarenta anos. Bebi um refresco e fiquei a pensar nas notas do
último período de aulas, dos meus alunos. Havia alguns que não iriam passar de
ano. Culpa deles que não estudaram o suficiente ou culpa minha que não me fiz
entender e explicar as aulas convenientemente? Uma dúvida que sempre que o ano
findava, se me colocava. Ano após ano.
Acabada a bebida foram-se
levantando e depois de um cumprimento, saíram e rumaram a casa.
Levantei a cabeça e vi que um
ficara sentado a olhar me.
Desvalorizei. Os meus alunos
enchiam-me, naquele momento, todos os pensamentos. Levantei-me e dei a volta ao
quarteirão e fui para casa.
O homem tinha uns fiozinhos
brancos de cabelo a espreitar por entre os outros ainda negros. Isso ficou me
na cabeça, embora não tenha dado grande relevância à pessoa.
Por curiosidade, fui de novo à
esplanada. Fui ver se encontrava o mesmo grupo embora nunca os tivesse visto
por ali. Não! Apenas um. O dos fiozinhos de cabelos brancos, com um copo de
limonada na mão. Entabulou conversa perguntando se eu gostava do verão. Ele não
gostava muito do calor, mas que não havia outro remédio.
Mais um dia. Outro dia e fomos
conversando do calor, das aulas, do trabalho dele, dos meus alunos, de outras
banalidades.
Fomos falando e pouco a pouco
fomos aproximando as nossas vidas e as nossas conversas.
Tão boa a sua companhia, a sua
mão na minha, os lábios tão quentes e até o seu bafo me confortava. Passámos a
sair juntos.
O tempo foi-nos aproximando e
nós gostávamos. Dei por mim apaixonada. A paixão existe? Não faço ideia. Mas
aquele sentimento não podia ser outra coisa, pois passei a deixar de pensar
tanto nas aulas. Sempre ele.
Quando à noite ele me sentava
nos joelhos e me abraçava, eu ficava sem pensar em nada. Só aquele cabelo e os
olhos grandes e lindos me enchiam a alma e o ego. E eu gostava sempre.
Cada centímetro da sua pele
respirava sensualidade.
Uma tarde, enroscados junto à
lareira, em minha casa, porque a noite estava fria, contou-me de uma relação
antiga. Foi mau. Deixou marcas. Chorou e eu chorei com ele. Uma traição não se
esquece com facilidade. Ele tinha sido vítima de uma traição. Mal eu sabia …….
Consolei-o, não só naquela
noite mas em muitas mais que se seguiram. Como ele se mostrava meigo! Os olhos
lindos, cada vez mis lindos, rasos de lágrimas, ia contando como fora amargo encontrar
os dois, numa manhã, deitados lado a lado na mesma cama onde ele e ela dormiam.
A cabeça pousada nos meus
joelhos. Imagino o que sentia e talvez sem eu querer, foi assim que me
apaixonei.
Os dias e as noites foram
passando, ora na minha casa ora na dele. De vez em quando íamos passar a tarde
que restava no fim das minhas aulas e do trabalho dele. O grupo mantinha-se por
ali, fazendo eu também parte dele, agora.
Eram divertidos, mas também já
não seria por muito mais tempo pois o contrato da Empresa onde trabalhavam iria
findar. Cada um rumaria às suas casas e a outros contratos noutras terras.
Nunca coloquei a hipótese dele
ir também. Nunca perguntei, como nunca perguntei porque razão um dos do grupo
ficava tantas vezes para jantar em casa dele.
Numa das noites que fiquei em
minha casa sem ele, vi que me esquecera da agenda em casa dele. Pronto! Teria de
ir buscá - la de manhã. Precisava de dar notas e tinha aí tudo guardado.
Levantei-me um pouco mais cedo.
Corri na esperança de o encontrar ainda deitado. Abri a porta. Pelo chão havia
roupa espalhada e copos vazios em cima da banca da cozinha. Fui direita ao
quarto e ali, na cama dele, juntinhos os dois amigos ainda abraçados dormiam
depois de uma noite louca. Não deram por mim. Agarrei a agenda e corri direita
a minha casa.
Meti a chave na fechadura que
se abriu com um clic meio silencioso, meio chato. Não queria que me ouvissem.
Peguei nos sapatos, agarrei-os
pelos saltos como se lhes quisesse apertar o pescoço. As lágrimas correram - me
pela face enquanto subia as escadas. Sentei-me no último degrau e a cabeça
vagueou mais uma vez. Era o fim. Revi mais uma vez a mesa da esplanada onde nos
conhecemos, o amigo que ficava para jantar, a lareira onde me contou da traição,
e por fim como os vi aos dois na cama, deitados lado a lado nos mesmos lençóis
onde dormíamos.
Natércia Martins
2015
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